Cáritas Brasileira inicia sua XX Assembleia Nacional
- Equipe Apoio
- 18 de nov. de 2015
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Segue o link com as fotos e os textos da Assembléia. https://www.flickr.com/photos/caritasbrasileira/sets/72157661247856541
A Cáritas Brasileira iniciou nesta quinta-feira, dia 12/11, data do seu aniversário de 59 anos, a XX Assembleia Nacional. O evento tem como lema Cáritas Brasileira: Missão e solidariedade a serviço da Vida e pretende aprofundar a reflexão sobre o tema Gestão da Rede Cáritas. O encontro nacional é resultado de um processo que contou com as etapas local, regional e inter-regional, além de uma etapa prévia a todas essas que foi a organização pessoal de cada agente Cáritas diante da temática e das questões a serem abordadas na assembleia. Os participantes avaliarão os processos de gestão compartilhada, a atuação em rede, a incidência das ações da Cáritas sobre a realidade, a inserção de seu trabalho nos espaços da Igreja e a mobilização de recursos. A partir dessa avaliação, serão definidos os novos rumos de gestão da Rede Cáritas. Além disso, será escolhida a próxima direção da organização. A Mesa de Abertura da XX Assembleia Nacional, realizada na tarde desta quinta-feira, contou com as presenças de Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); Dom Flávio Giovanale, presidente da Cáritas Brasileira; Dom Arlindo Gomes Furtado, primeiro cardeal de Cabo Verde; Anadete Gonçalves Reis, vice-presidente da Cáritas Brasileira, e Marina Almeida, secretária-executiva da Caritas Caboverdiana. Cerca de 200 pessoas estão reunidas na assembleia, entre membros da Diretoria Nacional, Conselho Fiscal e Coordenação Colegiada da Cáritas Brasileira, delegados por entidade-membro, o/a secretário/a regional e os Bispos Referenciais. Também estão presentes convidados das Pastorais Sociais, CNBB, representantes do Seminário Fome e Desigualdades nos Países Lusófonos e entidades parceiras, além de toda equipe do Secretariado Nacional. A programação geral da XX Assembleia Nacional começou na manhã do dia 12/11, com a Reunião dos Bispos Referenciais. À tarde, além da Mesa de Abertura, foi realizada a Análise de conjuntura da realidade socioeconomicapolítica brasileira, com as assessorias da professora Maria Lúcia Fattorelli, auditora aposentada da Receita Federal e fundadora do movimento Auditoria Cidadã da Dívida, e do filósofo e dr. em Sociologia do Trabalho pela Universidade Federal do Paraná, César Sanson. A abertura da feira comemorativa e celebração do aniversário da Cáritas foram feitas à noite. Nesta sexta-feira, dia 13/11, está prevista a Análise da conjuntura eclesial, pela manhã, com as presenças do monge Marcelo Barros e da professora Carmem Lussi.
Dívida interna do Brasil cresceu R$ 600 bilhões em nove meses

A dívida interna brasileira cresceu R$ 600 bilhões nos primeiros nove meses de 2015. A informação é da professora Maria Lúcia Fattorelli, auditora aposentada da Receita Federal e fundadora do movimento Auditoria Cidadã da Dívida. Ela assessorou o painel Análise de conjuntura da realidade socioeconomicapolítica brasileira, que integra a programação da XX Assembleia Nacional da Cáritas Brasileira, na tarde desta quinta-feira, dia 12/11. O quadro é consequência tanto das altas taxas de juros praticadas no Brasil quanto dos contratos de swap(“permuta”, em português) cambial assinados pelo Banco Central. Fattorelli lembrou que os contratos de swap são assinados entre o Banco Central e grandes empresas para garantir a rentabilidade dos investidores – por exemplo, em situações de alta do dólar. Assim, o swap garantiria limites máximo ou mínimo de cotação da moeda nas negociações entre o governo e a iniciativa privada, conforme o interesse desta, beneficiando-a ao mesmo tempo em que causa prejuízos ao Banco Central. “É por isso que os bancos estão enriquecendo cada vez mais no Brasil. A própria taxa de juros é uma deliberação política do Banco Central. Não há justificativa [técnica] para mantê-la nos níveis atuais”, enfatizou a auditora. A fundadora do Auditoria Cidadã da Dívida afirma que a ampla relação que envolve o modelo econômico vigente; os privilégios financeiros ao capital; o sistema legal, e sua faceta corrupta; o sistema político, e sua proteção aos interesses dos próprios políticos; a corrupção em sua dimensão ampla, que sustenta todo o sistema legalpoliticoeconômico; o tipo de tratamento dado a estas informações pela grande mídia, engajada ideologicamente com o sistema; assim como a ação dos organismos internacionais, também ideológica, provocam como resultado a dominação financeira, pesando sobre os trabalhadores e trabalhadoras. “Pagamos a conta da dívida e sequer sabemos quem são os credores. Sequer sabemos quem são os beneficiados com estes contratos de swap. Isso é um absurdo!”, ressalta Fattorelli. Para dimensionar as consequências da falta de informação, ela faz uma citação bíblica: “O meu povo foi destruído porque lhe faltou o conhecimento (Oséias 4,6)”. “A chave para combater isso é a educação, e o Brasil é o penúltimo no ranking da educação. Isso diz muito sobre conhecimento em nosso país. Quem paga a conta não está gritando, porque sequer sabe que está pagando a conta”, destacou ela, citando o exemplo do Equador como experiência bem sucedida de quem aprofundou seus conhecimentos sobre a dívida. O país sul-americano fez uma auditoria e recomprou a própria dívida por 30% do valor alegado inicialmente pelos credores.
Brasil vive duas crises e uma agenda regressiva

O filósofo e dr. em Sociologia do Trabalho pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), César Sanson, afirma que o Brasil está passando por duas crises. Uma econômica, decorrente da crise do modelo neodesenvolvimentista, que tem no desastre ocorrido em Mariana/MG um exemplo de suas possíveis consequências; da desindustrialização e da própria crise internacional. Outra política, relacionada ao sequestro da democracia pelo dinheiro, como os movimentos sociais estariam chamando o domínio dos aspectos econômicos sobre os sociais; a uma representação política deformada da sociedade, já que a maioria dos parlamentares é formada por homens brancos e ricos – o que não corresponde ao extrato social majoritário no Brasil – e à agenda regressiva, resultante de um ideário neoliberal somado a um moralismo ultraconservador. “Na Câmara dos Deputados, 70% são pessoas brancas e 9% são mulheres. Essa, evidentemente, não é nossa realidade”, apontou o professor, que cita o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), como um dos responsáveis também pela agenda regressiva. Para Sanson, há um esgotamento do modelo de inclusão social via mercado, implementado no Brasil pelos últimos governos. Conforme o filósofo, isso provocou uma crise social que só não produziu consequências maiores porque a elite está dividida, já que parte dela defende a institucionalidade no país (e é contra o golpe político que representaria um processo de impeachment presidencial) por estar sendo beneficiada pelas políticas públicas adotadas no governo atual. “Não há unidade na elite neste momento, até porque a presidente Dilma Rousseff está governando para os derrotados [nas eleições de 2014]”, destacou. O professor lembrou que, historicamente, a esquerda brasileira, por sua formação marxista, acreditava que a revolução social e, consequentemente, política e econômica seria uma revolução operária e camponesa. Ou seja, seria realizada pela união entre os trabalhadores e as trabalhadoras do campo e da cidade. “Entretanto, hoje, no Brasil, são os índios os principais opositores ao sistema vigente”, ponderou ele em painel com o nome Análise de conjuntura da realidade socioeconomicapolítica brasileira, integrante da programação da XX Assembleia Nacional da Cáritas Brasileira, na tarde desta quinta-feira, dia 12/11. Afinal, são os indígenas que estão à frente da luta e da mobilização pelo direito à terra, pelo uso sustentável do meio ambiente e pela preservação da sua cultura e conhecimentos.